- Como está o rapaz da cama da frente?
(aquele silêncio, a confirmação da certeza do dia anterior)
- Faleceu de madrugada!
(de novo um silêncio, aquele nó na garganta)
(...)
Eu sabia que estava perto. Senti-a. Senti-a de perto. No olhar. Naquela voz cansada!
"Oh desculpe, por lhe ter pedido ajuda!"
Tinha tentado que ele ficasse mais confortável, a enfermeira chamou-me à atenção.
Apesar do estado dele, teve o cuidado daquele pedido desculpa.
Doeu-me. Tanto.
O amor de um coração doente emociona quem o consegue sentir nesta dimensão.
Despedia-se da vida.
Naqueles dias, tão poucos, vi a degradação do seu estado.
Como é brutal assistir assim ao fim.
Alguém que não conheces.
Alguém que te prende o olhar.
Alguém que a tua alma reconhece num amor incondicional. Humano. Divino. Único.
É brutal o impacto que a morte de alguém tem em ti, não porque te é familiar, não porque te é amigo ou simplesmente conhecido, mas porque é humano, porque é parte de ti...
É tão intenso que não consegui dormi a noite toda, sentia-a sua partida em mim...
Algo tão transcende que não consigo sequer transpor para palavras.
Ele morreu naquela madrugada e parte da minha alma partiu com ele, partículas pertencentes a este infinito de luz que nos une. Partiu.
Ele continuará o seu caminho.
Por aqui, agora, acabou!
Choro a perda da sua mãe, do seu irmão...
Choro essa dor, numa emoção imensa que me garante que tudo está certo e que nada acaba aqui...
Mesmo que aqui e agora, tudo tenha acabado!
Sinto a alma a despir-se daquela dor.
Dói. Mas liberta!
Liberta para seguir...
E a alma sempre segue!
Sempre!
Sónia Machado Araújo
Sem Hora Marcada
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